sábado, 7 de julho de 2007

Os desafios da mídia com o jovem atual

Felipe Rosa

Em entrevista ao repórter Felipe Rosa, o médico psiquiatra Jairo Bauer, comenta sobre a mobilização do jovem para as causas sociais.

A discussão do papel da mídia na construção de um jovem protagonista de ações para causas sociais já é tema de debate em diversos meios há algum tempo. Percebe-se a necessidade de utilizar esse importante mecanismo não para apenas apresentar informação ao jovem, mas sim trazê-lo para o contexto da informação. Ainda que se fale muito em dar voz a esse menino ou menina, são poucas as ações em que a mídia abre espaço para que ele fale. Em entrevista ao repórter Felipe Rosa, o médico psiquiatra Jairo Bauer, comenta sobre a mobilização do jovem para as causas sociais.

Felipe Rosa - Por que se fala tanto em dar voz ao jovem na mídia e se tem tão poucas ações para isso?

Bauer: É muito importante o jovem colocar a voz na mídia, sobre o que acha e o que pensa. No entanto, eu acho que a gente cai um pouco no preconceito de que jovem não quer ouvir o jovem falar, o que eu acho errado. A gente às vezes parte do pressuposto de que o jovem quer ouvir o especialista, o cara mais velho, e eu acho que não é por aí não. O legal e o importante é ouvir o jovem falar.

Felipe Rosa - A escola tem papel fundamental na educação do jovem para que ele tenha um olhar crítico para a mídia. Mas como, com uma educação defasada como a nossa?

Bauer
: Como a educação deixa a desejar em vários campos no Brasil, eu acho que ela também deixa a desejar no que diz respeito à avaliação do que ele está vendo. Como o jovem vai formar um filtro que separe o que é bacana do que não é bacana, o que acrescenta do que banaliza? Acho que deveria existir alguma forma de aprendizado mais crítico, para a formação de um filtro melhor. Às vezes o cara está assistindo uma porcaria porque ele não tem noção de que pudesse ver uma coisa mais bacana e que pudesse mexer com ele de uma forma diferente. Se a escola se ocupasse melhor disso, a educação em casa, e até os amigos, a situação seria diferente.

Felipe Rosa - Falando em mídia, como lidar com a imprevisibilidade do jovem?

Bauer: As grandes dificuldades hoje são fazer com que o jovem mantenha essa atenção para o foco da informação, dado que ele tem essa atenção múltipla e flutuante. É necessário pensar no jovem como uma pessoa que quer interagir. Toda a informação a que ele tem acesso, internet, meios de comunicação fez com que ele se tivesse uma postura menos expectante e mais atuante. Além de ficar só ouvindo ele prefere interferir e a gente tem que saber lidar com isso.

Felipe Rosa
- A TV digital vem para ser um aliado na quebra dessa flutuabiliade do jovem, mas também pode ser considerada um perigo. Como trabalhar isso com ele?

Bauer: Enquanto tecnologia você não briga, você aprende a interagir. Ela está aí e você pode ter uma leitura crítica, achar que ela atrapalha, interfere na capacidade de concentração, mas não se pode mudar essa realidade. Cada vez mais vamos ter uma geração envolvida e interessada com tecnologia. O que se tem a fazer é usar a tecnologia a nosso favor. Hoje você tem os jovens de vários níveis sociais podendo interagir com a tecnologia, internet com banda larga, e quanto mais a gente tiver isso, vai melhor será para a formação da sociedade e do jovem como um todo. Dada a ampla disponibilização dos diversos meios de informação, é necessário que ele possa separar o joio do trigo. E aí ele vai ter que passar por um processo de educação mais intenso para que possa se posicionar sobre isso.

Felipe Rosa
- Como que a televisão pode servir como uma ferramenta de mobilização das causas sociais para o jovem?

Bauer: É necessário fazer que ele sinta que aquilo tem a ver com a realidade dele. Ele tem que se apoderar da discussão como se ela causasse impacto no seu universo emocional e psicológico. Enquanto ele não ler essa história como uma história que diz respeito à ele e as pessoas que estão vinculadas a ele, a chance de se mobilizar é muito pequena. Temos que ser perspicazes para detectar o que vai mexer com esse cara para que isso posteriormente se torne uma mobilização.